Google Voice: VoIP’s not Dead
Mar 23rd, 2009 by Vitor Magalhaes
Depois de ter adquirido em Julho de 2007 o operador VoIP GrandCentral e se ter pensado que iria deixar morrer o serviço, o Google anunciou há pouco mais de uma semana o seu relançamento através do Google Voice.
À semelhança dos primeiros dias do VoIP, muitos apontam o serviço como séria ameaça à indústria das telecomunicações e, novidade, à própria indústria do VoIP (leia-se, operadores de Voz sobre IP existentes e Skype).
Se as pesquisas Google revolucionaram a Web, e o GMail revolucionou o email gratuito, o Google Voice pode revolucionar o mundo da Voz.
Qual é a novidade do Google Voice?
Não há grandes novidades. Apenas o nome “Google” e uma “killer app”.
Nos meus tempos passados do VoIP (na Netcall), sempre defendi que o VoIP não tinha um modelo de negócio directo e que só seria sustentável quando associado a negócios com músculo financeiro e de mercado que vissem no VoIP, e na voz em geral, uma “commodity” e alavanca para trazer valor acrescentado a outros serviços. Na altura, este “músculo” era óbvio no mundo dos operadores de telecomunicações e na necessidade de criação de pacotes Triple Play (voz + vídeo + Internet).
É curioso que depois da inconsequente compra do Skype pelo eBay, seja agora um muito consequente Google que mais do que “músculo” trás o foco no utilizador, a paciência e visão Web para tirar partido real da convergência de serviços de voz e dados.

No entanto, o Google Voice não é mais do que a materialização de tudo o que o VoIP prometeu desde 2003:
- um número único (o Google Number) que vai permitir chegar a todos os telefones do utilizador;
- um IP Centrex pessoal, uma espécie de telefonista virtual com todas as funcionalidades que definem este tipo de serviço;
- uma interface web de gestão;
- chamadas internacionais mais baratas.
A que o Google acrescenta:
- uma nova interface, simples e mais limpa (Google like);
- bom tratamento de SMSs;
- conferências telefónicas gratuitas;
- integração com contactos do GMail;
- transcrição textual de voice mail.
A “killer app” do Google Voice é precisamente a transcrição textual do voice mail, permitindo “ler” voicemails enquanto estamos ao telefone, em reuniões, etc.. Por outras palavras, não somos obrigados a ouvir mensagens.
É muito provavelmente por esta funcionalidade que surge o interesse do Google na voz uma vez que ao transcrever as mensagens de voz, estas passam a ser indexáveis, como qualquer página Web ou email, e a poder alimentar o negócio Google de AdWords.
Não será de estranhar que comecem a aparecer campanhas de AdWords baseadas nas conversas telefónicas.
O factor “Google”
Apesar de uma série de questões que o serviço levanta, a estratégia do Google é, uma vez mais, irritantemente… coerente e preocupante.
Citando Phil Wolff, editor do Skype Journal, “a possibilidade de transformar as regras do jogo pela capacidade de trazer todo o tipo de pessoas para as suas novas ferramentas a partir das ferramentas existentes”.
O GMail revolucionou o mail e é hoje, mais do que um leitor de email, um centro de contactos e de comunicações. Para além da interface, integra email, sms, voz, vídeo e Instant Messaging.
O Google Voice acaba por ser apenas mais um passo em frente na estratégia do Google e arrisca-se a ser o seu 4º maior serviço (a seguir à pesquisa, adwords e Gmail).
Apesar disto, há desafios e barreiras que, até para o Google, não vão ser simples de gerir.
Privacidade
Com o Google Voice, o Google passa a ter ainda mais informação sobre as nossas vidas, incluindo gravações dos nossos voicemails e possivelmente, das chamadas telefónicas. Para além da informação sobre o conteúdo das chamadas, o Google passa a saber quem e quando nos liga. Se somarmos o que o Google já sabe sobre nós, isto pode significar o fim definitivo da privacidade.
Tal como já o faz hoje no GMail, ao transcrever a voz para texto, não será de estranhar que a curto prazo comecemos a ter publicidade (AdWords) baseada nos nossos temas de conversa.
Claro que como em todos os serviços anteriores é fácil dizer “se não gostam, não usem”. Mas aqui não é bem assim. Eu posso não usar o Google Voice mas ao ligar para alguém que use, como é que impeço que a minha chamada ou voicemail seja gravado e indexado?
Eu, que até aqui nunca me preocupei com a informação que o Google agrega sobre mim nas minhas pesquisas, no GMail e no meu profile, confesso que não me sinto confortável.
Como li alguém dizer, o que é que vem a seguir? Google Bedroom?
Concorrência
Ao fornecer o Google Voice gratuitamente e chamadas internacionais a custos reduzidos o Google está claramente a competir com os operadores de telecomunicações.
Parte destes operadores são os mesmos operadores móveis que vão decidir apostar em terminais (ex.: HTC) com Android (sistema operativo do Google para telemóveis) ou em terminais com outros sistemas (ex.: Symbian, iPhone, Palm Pre, Windows Mobile, Blackberry). Os mesmos operadores a quem o Google já causa hoje desconforto sobre políticas de segurança e sobre quem irá controlar as receitas geradas pelos lucros de publicidade e serviços Internet no móvel.
E se esta aposta do Google Voice se antecipa como um dos principais serviços do Google, o Android e a presença no móvel não será menos importante.
Se A gestão do relacionamento com os operadores, já hoje é delicada, no futuro não vai ser fácil.
Na Voz sobre IP (VoIP), o serviço é uma ameaça real para os operadores actuais e pode mesmo fazer pelo VoIP o que os operadores de telecomunicações incumbentes foram fazendo lentamente com as tarifas planas e ofertas de chamadas: matar o mercado.
Diria mesmo que para operadores como a Vonage, se até aqui a vida já era complicada, a partir de agora passa a ser impossível.
Relativamente ao Skype, se o Google tem a vantagem de não apostar na chamada iniciada no computador mas na gestão dos serviços e terminais de voz (telefones fixos e móveis) existentes, o Skype tem:
- 400 milhões de utilizadores registados;
- 350 mil novos utilizadores diários;
- Vantagem grande na qualidade de serviço na voz e vídeo;
- Vantagem grande na qualidade do serviço de vídeo conferência;
- Imagem de que o serviço é simples e “funciona”.
Apesar de também ser detido por um gigante do mundo Web, não goza de quaisquer sinergias do accionista eBay, que se especula há alguns meses estar interessado em vender (leia-se “desfazer-se”).
Reguladores
O maior entrave ao Google Voice, virá dos reguladores uma vez que o serviço não deixa de ser um serviço VoIP que levanta questões críticas sobre privacidade, com regras instituídas que variam de País para País.
Para fornecer o serviço o Google terá, em muitos países (incluindo Portugal) que:
- Obter, e pagar, uma licença de operador;
- Obter e gerir numeração. Em alguns países poderá ser numeração geográfica (como os nossos “21″, “22″, etc.) ou nómada (o nosso “30″). Em Portugal, terá que ser “30″;
- Terá que convencer os reguladores sobre as questões de privacidade. Não se trata apenas de uma ANACOM (regulador de telecomunicações) mas de reguladores como CNPD (Comissão Nacional de Protecção de Dados).
Pelo domínio monopolista que tem na Internet, ao nível dos serviços e publicidade, o Google começa a perder o estado de graça.
Em Portugal, apesar de sempre ter defendido que mal por mal, mais valia que o regulador definisse regras para o VoIP, a verdade é que as regras definidas pela Anacom, nomeadamente a exigência de licença de operador, custo da mesma licença e a utilização de numeração “nómada”, em contra ciclo com o resto do mundo, apenas protegeram o negócio de Telecomunicações tradicionais e acabaram com a possibilidade de uma mercado VoIP.
Por isto, e pelo valor diminuto do nosso mercado, tenho dúvidas que o Google Voice vá estar disponível em Portugal.
Questões técnicas
É pouco provável que o Google Voice venha a ser um serviço global. Não só pelas questões regulamentares como pelas, até para o Google, dificuldades tecnológicas.
A “Killer App” do Google Voice, a transcrição do voicemail, quando comparada com serviços similares (como spinvox e simulscribe/phonetag) não é perfeita. Claro que o Google a vai melhorar. Mas ainda estamos a falar da língua Inglesa.
Quando falamos de um serviço global, a complexidade aumenta exponencialmente. O reconhecimento de voz em Inglês é substancialmente diferente do Alemão, Francês, Português, dos diferentes idiomas em Espanhol, do Chinês, etc..
Quem está familiarizado com tecnologia de síntese e reconhecimento de voz sabe que não se trata de uma tarefa simples.
Notas pessoais
Nada disto é novo. Foram precisamente este tipo de serviços que me fizeram ser cofundador da Netcall (primeiro operador VoIP em Portugal, entretanto já desaparecido) quando em 2003 me entusiasmei pelo VoIP e comecei a desenhar o que poderia ser um operador VoIP.
Na altura, entusiasmou-me o potencial da ligação de serviços IP à voz, o IP Centrex e operador virtual, a síntese e o reconhecimento de voz. De tal forma que criei uma parceria com uma empresa de um amigo espanhol (Porfynia) que desenvolvia portais de voz e com a Loquendo para a gestão directa de síntese (TTS) e reconhecimento de voz (ASR).
Ainda antes da criação da Netcall, cheguei a propor à PT um serviço de mail2voice que permitiria a qualquer cliente PT ter um endereço de email e receber no seu Telefone emails que lhe fossem enviados (o endereço seria algo do tipo <número de telefone>@telecom.pt).
Pela admiração que tenho pelo Google e por todo o meu passado no VoIP, é com imensa curiosidade que vou seguir o Google Voice, com uma certeza: já não se trata de VoIP.













Muito honestamente devo antes dizer que sou um pouco velho do restelo quando se trata de tecnologias emergentes. A título de exemplo: Recusei a achar as caixas ATX interessantes ou úteis quando sairam em meados de 90’s.
De qualquer forma, a partir deste momento parecem-me existir dois desfechos disgtintos para esta aventura do google: ou se tornam no maior operador de comunicações do mundo, criando algo como o GoogleCommunications que incluirá desde mail até voip, passando por videochamadas e etc; ou, por outro lado isto torna-se o segundo e mais agressivo flop da empresa. Não nos esqueçamos da tristeza que é o google video original.
Espero pela segunda, não porque deseje mal à empresa mas porque acho que se esta num momento em que o empreendedorismo esta em risco e é preciso tirar o google do altar… uma situação análoga aos tempos de gloria do Schumaker da F1.
Não vou discutir as funcionalidades e a tecnologia envolvida, primeiro porque não sou a pessoa ideal, segundo porque o Vitor fê-lo muito bem.
Na minha visão a google deu um passo que faz todo o sentido, após o google talk e vídeo, lança agora o produto voice. É verdade que o google talk e vídeo não tiveram a recepção esperada, no entanto, temos de ter em consideração duas coisas: trata-se de um player de grande dimensão, com capacidade instalada e em último recurso com muito dinheiro para jogar em cima da mesa, não subestimar este factor. Por outro lado, está a competir com dois pesos pesados: a Microsoft (Messenger/Windows Live)* e o prórpio Skype, que recentemente chegou a acordo com a Nokia para que os novos modelos da fabricante saía já com o Skype instalado, juntando a este facto que as operadoras caminham para se tornarem ISPs (na minha opinião), portanto está a dar cartas.
*Não sei nenhuma informação confidencial ou de outro tipo mas prevejo que a Microsoft deve ser a próxima a dar o passo.
Vamos esperar para ver…