Fragmentos de páginas da Internet ligados por uma linha vermelha

Há uma frase que se repete desde que começámos a deixar partes cada vez maiores das nossas vidas online: a Internet nunca se esquece.

É uma frase usada normalmente como aviso. Cuidado com o que publicas. Uma fotografia, uma opinião ou um comentário menos feliz podem perseguir-te para sempre.

Parece verdade. Mas não é.

A Internet esquece-se de coisas todos os dias. Servidores são desligados. Empresas desaparecem. Domínios expiram. Plataformas fecham. Links deixam de funcionar. Imagens ficam alojadas em serviços que já não existem. Vídeos são removidos. Discos avariam. Backups, que tínhamos a certeza de ter feito, revelam-se surpreendentemente imaginários.

Descobri isto da forma menos teórica possível.

Tendo sido fundador e CEO da BySide, era natural que o meu blog pessoal estivesse alojado nos servidores da empresa. A BySide e eu crescemos juntos durante muitos anos, e separar completamente a infra-estrutura pessoal da profissional nunca pareceu particularmente urgente.

Após a compra da BySide pela CoreMedia, o meu blog desapareceu.

Apagado por erro. Juntamente com os backups.

Não desapareceu apenas um WordPress, uma base de dados e um conjunto de ficheiros. Desapareceram textos escritos ao longo de vários anos. Opiniões, histórias, imagens, vídeos e momentos que eu tinha decidido guardar.

Uma parte de mim tinha sido apagada.

Durante algum tempo aceitei que aquela parte de mim estava perdida. O blog já tinha ficado praticamente abandonado e a minha escrita mudara-se para uma newsletter semanal da BySide, publicada todas as segundas-feiras às nove da manhã. Escrevi todas as semanas durante anos. Nunca só para mim.

Só depois da venda da empresa, quando essa rotina terminou, voltei às memórias antigas. E decidi tentar recuperá-las.

A ideia parecia relativamente simples: encontrar as páginas guardadas pelo Wayback Machine, recuperar os textos e voltar a publicá-los num site novo, sem WordPress e sem a fragilidade da infra-estrutura antiga.

A palavra “recuperar” fazia tudo parecer um processo mecânico. Como restaurar uma cópia de segurança.

Não foi.

Escrevi um script para interrogar o índice do Internet Archive, listar os endereços guardados do meu domínio e descarregar tudo o que encontrasse. A primeira execução devolveu 127 registos que pareciam corresponder a textos.

Era um número suficientemente grande para parecer completo. E os números têm esse estranho poder: dão-nos uma sensação de rigor, mesmo quando apenas medem aquilo que soubemos procurar.

Os 127 registos correspondiam às páginas que seguiam a estrutura de endereços utilizada pelo antigo WordPress — precisamente o padrão que eu tinha dito ao código para procurar.

Parecia lógico assumir que eram todos.

Até encontrar uma captura da homepage de 26 de Agosto de 2024 que mostrava conteúdos que não estavam nessa lista.

Os 127 não eram o arquivo. Eram apenas os 127 que o meu código tinha sabido procurar.

Há uma diferença importante entre procurar aquilo que sabemos que existe e descobrir aquilo que ainda não sabemos procurar. É uma diferença que se aplica à tecnologia, à ciência, aos negócios e, aparentemente, à recuperação de blogs antigos.

Voltei atrás e reescrevi quase todo o processo.

Deixei de partir de um padrão de endereços e passei a partir das próprias páginas: homepages guardadas em anos diferentes, arquivos mensais, categorias, tags, paginação, feeds e links internos. Cada página encontrada podia conter o endereço de outra que eu ainda não sabia que existia.

Foi também necessário ensinar ao código aquilo que para mim era óbvio e para ele não era: que http, https, www, portas, barras no final dos endereços e redireccionamentos podiam representar a mesma página vestida de maneiras diferentes.

E foi aí que a recuperação começou a parecer menos informática e mais arqueologia.

No Wayback Machine, uma página pode estar completa, mas a imagem desapareceu. Outra mantém a imagem, mas perdeu o texto. Um vídeo sobrevive como um rectângulo vazio. Um artigo conserva o título e os primeiros parágrafos, terminando precisamente no ponto onde o antigo WordPress dizia “continuar a ler”.

Por vezes temos a porta, mas não a casa. Noutras, temos a fotografia da casa, mas já não conseguimos entrar.

O Wayback Machine não é uma reprodução perfeita da Internet. É uma colecção extraordinária de fragmentos. E é precisamente por ser imperfeito que se percebe a sua importância.

Produzimos hoje mais informação do que em qualquer outro momento da história e, paradoxalmente, podemos estar a criar algumas das memórias mais frágeis de sempre.

Um álbum de fotografias tinha de ser perdido, molhado ou queimado. Uma fotografia digital pode desaparecer porque alguém deixou de pagar uma conta, esqueceu uma palavra-passe ou a guardou num formato que já ninguém consegue abrir.

O Internet Archive e o Wayback Machine fazem, por isso, algo que me parece cada vez mais essencial: preservam contexto.

Não guardam apenas palavras. Guardam, quando conseguem, a página onde essas palavras estavam, as imagens que as acompanhavam, os links que estabeleciam, o aspecto que a Internet tinha naquele momento e até os erros que fazíamos.

Aquela captura de 2024 não continha tudo. Mas continha o suficiente para dizer: “olha outra vez”.

Dois dos artigos que procurava demonstraram também os limites de qualquer arquivo. De ambos, o Wayback Machine tinha guardado referências, títulos e excertos, mas nunca o texto completo.

Tentei todas as capturas, todas as variações de endereço e todas as páginas que lhes faziam referência.

Não havia mais nada.

Dei-os por perdidos.

Encontrei-os no meu Mac, no iA Writer, o editor de Markdown que uso há mais de dez anos.

Estavam simplesmente onde tinham sido escritos. Tinham sobrevivido a várias máquinas e a várias migrações sem que eu alguma vez tivesse pensado nisso, porque continuei a transportar comigo os mesmos ficheiros e nunca mudei de editor.

A arqueologia digital tinha falhado. Um hábito antigo tinha resolvido o problema.

Um deles era “Man and machine: Creativity and creative AI”. O outro, “All flowers in time bend towards the sun”.

Quando comecei a usar Markdown, era uma escolha de nicho e tive de explicar várias vezes por que razão escrevia em ficheiros de texto com asteriscos. Hoje tornou-se quase uma língua franca da escrita digital.

Não sobreviveu por ser moderno. Sobreviveu por ser simples — que costuma ser a mesma razão pela qual as coisas duram.

A memória da Internet revelou-se, afinal, distribuída.

Uma parte estava no Wayback Machine. Outra num disco meu. Outras partes estavam em imagens, vídeos, páginas de arquivo e agregação e ligações criadas por pessoas que, provavelmente, nunca imaginaram estar a participar num processo de preservação.

Nenhuma fonte tinha tudo. Juntas, tinham quase tudo.

Aquele “quase” tem coisas concretas lá dentro.

Perdi definitivamente a imagem dos cartões de visita que mandei fazer pela Internet, num artigo chamado “Personal Branding 2.0” — um título que data o texto melhor do que qualquer carimbo.

O artigo sobreviveu. A imagem não.

Descobri também que vários links e vídeos que tinha publicado deixaram simplesmente de existir — esses sem nenhuma relação com o apagão do blog. Desapareceram por conta própria, ao ritmo normal a que a Internet se esquece.

Recuperar um arquivo não o põe a salvo. Devolve-o apenas ao mesmo processo.

Colagem de imagens recuperadas do blog de Vítor Magalhães

No fim, o arquivo histórico tem 127 textos.

O número é o mesmo com que comecei. A conta não.

Os primeiros 127 eram ficheiros recuperados, mas correspondiam apenas a 125 artigos distintos: duas capturas eram versões duplicadas do mesmo conteúdo.

A pesquisa mais abrangente revelou os dois artigos de 2019 que faltavam. Quando os encontrei no meu Mac, o total voltou aos 127 — desta vez, 127 textos diferentes.

Se me tivesse ficado pela primeira pesquisa, teria chegado exactamente ao mesmo número e teria um arquivo diferente, sem nunca ter percebido isso.

Depois veio a parte estranha: ler aquilo que escrevi há quinze ou dezoito anos.

Encontrei opiniões sobre o Google, o Twitter, o iPhone, a Microsoft, marketing, inovação e empreendedorismo. Algumas envelheceram bem. Outras são, digamos, interessantes quando vistas à distância.

Encontrei também textos que não tinham nada a ver com tecnologia. Música. Pessoas. Momentos. A minha gata Clara. Uma canção de Jeff Buckley e Elizabeth Fraser. Coisas de que me lembrava e outras que já não sabia que tinha escrito.

A tentação inicial é corrigir.

Não apenas o inglês ou uma gralha, mas corrigir o passado. Afinar uma previsão. Retirar uma frase ingénua. Fazer com que a pessoa que escreveu o texto pareça um pouco mais inteligente do que realmente era.

Mas um arquivo não é um currículo.

O valor daqueles textos está precisamente em terem sido escritos por quem eu era naquele momento. Posso discordar hoje. Posso sorrir. Posso até sentir alguma vergonha alheia de mim próprio.

Mas não devo reescrever essa pessoa apenas para a tornar mais parecida com aquela que sou agora.

A memória só tem valor se não for retroactivamente aperfeiçoada.

As imagens e os vídeos tornaram isso ainda mais evidente. Um texto sem a fotografia que o acompanhava nem sempre é o mesmo texto. Uma almofada, uma gata, uma tira de banda desenhada ou um vídeo aparentemente irrelevante podem ser a chave que devolve o sentido a uma página.

Recuperar esses elementos não foi decoração. Foi recuperar parte da memória.

O site que existe agora já não pretende ser um monumento à recuperação de um antigo WordPress.

É novamente um site pessoal. Um lugar onde posso juntar textos antigos e novos, tecnologia, música, cultura, trabalho e algumas divagações adicionais.

O arquivo está lá, mas não precisa de dominar a casa.

Preservar não é embalsamar, e um arquivo que ninguém volta a abrir é apenas um caixote mais bem arrumado.

Há uma ironia bonita no facto de um dos textos mais difíceis de recuperar ser “All flowers in time bend towards the sun”.

É um artigo sobre uma canção que nunca foi oficialmente editada, mas que continuou a circular pela Internet. A canção sobreviveu porque alguém a copiou, alguém a partilhou e outras pessoas continuaram a ouvi-la.

O texto sobre essa canção sobreviveu de forma semelhante: um excerto num arquivo, uma referência noutra página e uma cópia num editor que nunca mudei.

Nada disto aconteceu porque a Internet nunca se esquece.

Aconteceu porque pessoas, máquinas e instituições fizeram o esforço de não deixar desaparecer tudo.

O Wayback Machine não prova que a Internet tem uma memória infinita. Prova que podemos resistir ao esquecimento.

E talvez seja essa a verdadeira importância de um arquivo: não nos permitir regressar ao passado, mas impedir que o passado desapareça completamente.

Agora que o blog está novamente vivo, resta-me fazer a outra parte.

Continuar a escrever.