Porque faliu a Netcall?
Dec 17th, 2008 by Vitor Magalhaes
Na semana passada foi tornada pública a falência da Netcall, primeiro operador de Voz sobre IP (VoIP), ou voz sobre Internet.
Por ter sido co-fundador do negócio Netcall, por, apesar de ter apresentado alternativas (rejeitadas), ter antecipado e repetidamente alertado, sem ser levado a sério, para este momento, por me ter sentido obrigado a sair do projecto em início de 2006, por ter provado com os projectos actuais que a visão que defendia estava longe de ser lunática e era sustentada, apesar de fazer parte de um conflito accionista que ainda dura e correndo o risco natural de ser mal interpretado, sinto legitimidade e vontade de escrever algumas linhas sobre um projecto que chegou a ser o meu.
O comunicado Netcall referia que a falência se deveu “ao momento que vive a economia internacional, e, em particular, a nacional”. Externamente, sei que é fácil justificar “a queda” com factores económicos; internamente com conflitos internos e dizer que devido a estes conflitos se perdeu a “janela de oportunidade”. Como em tudo na vida, podemo-mos esconder atrás de desculpas e justificações ou podemos aprender com os erros e seguir em frente.
A Netcall teve efectivamente um “momento” e esse “momento” foi, à altura, o seu principal activo. Em 2005, criou-se e projectou-se uma marca e Netcall apareceu no mercado com uma imagem de inovação e disrupção. Uma espécie de “enfant terrible” com a vontade de mudar o mundo das telecomunicações. Chegou mesmo a ser encarada pelo incumbente como a nova vaga de concorrência (vi com orgulho a Netcall em Powerpoints da Portugal Telecom). Tinha a empatia dos media e do mercado que via com bom grado a redução de custos, a inovação e a alternativa a um (ou vários) incumbente(s).
O que é que falhou?
Falhou o mesmo que falhou em todos os negócios VoIP que se afundaram e que se estão a afundar pelo mundo. A verdade é que o VoIP não foi, ao contrário do que prometia, muito diferente do negócio tradicional de telecomunicações, obedecendo à mesma lógica de mercado do mundo das telecomunicações e respectivos reguladores: custos elevados de operação e margens baixíssimas. Como alguém dizia no GigaOM em 2006 , infelizmente “It’s a sucker’s game!”
Negócio de massificação
O negócio dos minutos de voz só faz sentido para grandes bases de clientes. Para uma Portugal Telecom que tem na rede fixa cerca de 4 milhões de clientes, um ARPU (receitas por cliente) de 1 € mensal significa 4 milhões de euros. Um aumento nas receitas de cerca 50 cts representa mais 2 milhões de euros mensais.
Para um pequeno player que consiga 100.000 clientes, o mesmo ARPU significa 100.000 euros, o que não cobre custos operacionais.
Tecnologia ou serviços?
Os operadores VoIP sustentaram os seus planos de Negócio em números de clientes que nunca chegaram a sair do Excel ou na criação de Serviços de Valor Acrescentado. Alguns destes serviços estavam lá desde o início, outros iriam aparecer com o tempo e necessidades de clientes.
A grande maioria não percebeu o que deviam ser estes serviços, ou como deviam ser comercializados, e acabaram a vender tecnologia, tornando-se rapidamente em “me-too players“. Mesmo quando, seguindo as “buzzwords” do mercado, apresentavam ofertas de SoIP (Services over IP) não fizeram mais do que criar ofertas ToIP (Technology over IP).
O negócio das telecomunicações e do VoIP não é, nem nunca foi, como muitos pensavam, um negócio de serviço telefónico, serviço de voz, conectividade, ligações, integração ou comunicações unificadas. Se o objectivo era deixar de ser uma “commodity” devia-se ter percebido que o contexto era a geração de negócio e não apenas a redução de custos.
Os novos “serviços” VoIP, como IPCentrex, Mail2Fax e IP PBX, representam para o utilizador comum… tecnologia! Não são serviços naturais, fáceis de usar e muito menos de perceber. Pior, não são fáceis de instalar uma vez que cada cliente tem a sua especificidade, seja pelo tipo de equipamento de rede, pelo tipo de ligação de banda larga ou pelo tipo de serviços partilhados na sua ligação à Internet. Ou seja… pesadelo!
E se até 2006 se dizia que os operadores de telecomunicações tradicionais não sabiam o que fazer com o VoIP, a verdade é que perceberam rapidamente que teriam que encarar a voz como uma “commodity” que serviria apenas como “teaser” para novos serviços de valor acrescentado (como a Banda Larga ou Televisão) que seriam a futura fonte de receitas.
Grande parte dos operadores VoIP não conseguiram ver para lá da voz e nunca conseguiram comercializar de forma sustentada os serviços SoIP. Também não perceberam que o negócio real do IP não está ao nível do IT e das telecomunicações mas sim ao nível do marketing e vendas. Os projectos de nova geração que queiram ter sucesso têm que ser “Problem Solvers“, ser tangibilizadores e capazes de gerar valor ao negócio dos seus clientes, sem nunca esquecer a sua geração de receitas.
Ser “Problem Solver” implica saber distinguir da concorrência e olhar para o “problema” com outra perspectiva (não podemos esquecer que é esta a obrigação de qualquer equipa de gestão de um projecto de inovação).
Veja-se o exemplo do iPhone que deve o seu sucesso não à tecnologia nem por ser mais um telefone ou “smart phone“, mas porque a Apple desenhou um telefone a partir de outra perspectiva. Olhou para o telefone por outro ângulo e criou um canal de entrega de conteúdos que criou contexto para conteúdos, comunicações, serviços e transacções comerciais. É assim que se é “disruptivo” e se inova.
Marketing e Branding
A Netcall teve em 2005 um pico de exposição e geração de Buzz. Quase sem budget, não foi difícil colocar o nome “Netcall” na rádio, televisão e jornais. Foi fácil: “enfant terrible“, efeito David e Golias (incumbente), inovação, tecnologia nacional, estava lá tudo. A marca, juntamente com a equipa, deve ser o primeiro activo a construir! Com a Netcall, foi fácil.
É fácil dizer que os conflitos accionistas foram responsáveis pelo esmorecer da marca. A verdade “nua e crua” é que o projecto não voltou a aparecer. Nem mesmo com o lançamento da numeração nómada soube tirar partido da geração de Buzz e exposição da marca.
Como cheguei a dizer neste Blog:
“Quem não aparece, desaparece!”
A tecnologia como activo
Quando foi lançada, a Netcall detinha a sua própria infra-estrutura. Mais tarde, passou utilizar a plataforma da Holandesa Intertalk (outra empresa do mundo VoIP em dificuldades) em modelo de ASP (Application Service Provider). Nesse momento, ao abdicar da “sua” plataforma, a Netcall abdicou de mais do que “uma” plataforma; abdicou daquilo que a distinguia como operador: o seu próprio know-how.
Com isto, agravado pelo esmorecimento do marketing e “branding“, abdicou de mais um activo e mostrou ao mercado e a potenciais compradores que é fácil criar um operador VoIP. Basta subcontratar uma plataforma!
Com esta mudança o operador de VoIP passou a ser a Intertalk de quem a Netcall passou a ser uma espécie de agente (e isto, apesar do exemplo herdado à altura do Talki do IOL).
Claro que é fácil argumentar com condicionalismos técnicos, a necessidade de novos serviços e da numeração nómada. Mas o que distingue o “know-how” de uma Startup tecnológica é a capacidade de fazer!
O problema das empatias
Os operadores de VoIP, devido à palavra “operadores”, têm uma missão de risco: fazer frente ao(s) incumbente(s). Isto obriga-os a ter um único alvo (não vou chamar inimigo) e muitos “amigos”. E estes “amigos” são: media, clientes e parceiros.
Para não criar inimigos é importante agradar a todos (ou pelo menos, não desagradar). Isto faz com que o negócio do operador de VoIP tenha que gerar receitas aos parceiros e nunca, mas mesmo nunca, lhes possa ser concorrente. Isto elimina como possibilidade de negócio:
- a consultoria em redes IP, espaço das empresas de equipamentos e networking como a Telindus, NextiraOne e mesmo a Cisco;
- o fornecimento de “soluções” integradas como IP PBX.
A Netcall tentou ambos sem sucesso sustentado.
O dilema do empresarial vs particular
O negócio do VoIP sempre teve o dilema do Empresarial vs Particular.
Por um lado, a aposta no mercado particular permite uma massificação mais rápida, gerar Buzz e criar ofertas tipificadas que minimizam problemas e necessidades especificas de suporte ao cliente (foi isto que fez a Vonage ), mas com receitas quase inexistentes. Por outro lado, o mercado empresarial permite pensar em “soluções” e “serviços” com receitas visíveis e é mais permissivo à redução de custos nas telecomunicações e unificação de redes.
Para além do VoIP ter associado o estigma do “Grátis”, as redes empresariais exigem soluções à medida e isso obriga à criação de redes comerciais com um nível de conhecimento que não existe no mercado, nem nos operadores incumbentes.
O negócio inicial Netcall foi desenhado para operar com foco no mercado empresarial mas criando oferta particular como principal estratégia de Marketing e Branding. Pelo meio, perdeu-se esta definição. O projecto foi empresarial, num dado momento mudou de direcção e, com o projecto netcall@home, apostou no mercado residencial/particular com serviços que o mercado não percebia, depois voltou ao mercado empresarial mas sem nenhum serviço que distinguisse e fizesse a diferença.
Cultura de inovação, o 2.0 e a armadilha “me-too”
O momento 2.0 do mundo Internet não permite atitudes “me-too”. Hoje, para ser inovador e disruptivo no mundo online não chega “querer”; apesar de imprescindível, não chega conhecer apenas a tecnologia mas a multitude de serviços, marketing e mercado; é preciso viver o VoIP, RSS, Blogs, Mashups, modelos de publicidade, redes sociais, tudo! É preciso ter uma verdadeira cultura web; é preciso respirar “online” e manter a capacidade de antecipar necessidades de clientes e mercados.
O “negócio” do VoIP, fora do Excel, nunca foi a venda de minutos. Num negócio em que o “teaser” comercial é a “redução de custos” e o “grátis” para chamadas entre clientes da rede, no limite, se todo o mercado fosse cliente, o serviço seria totalmente grátis e não geraria receitas (apesar dos custos).
A Netcall teve na sua estrutura a capacidade de ser Web 2.0. De oferecer ao mercado competências IP, não na voz mas na Web, de forma integrada. Na verdade, não o soube aproveitar. Não foi capaz de comercializar as soluções web (primeiro com o Weblight, mais tarde Netcall Web) e acabou por vender a carteira de clientes, lobotomizando aquilo que sempre deveria ter sido (web!). Ou seja, nunca “respirou o online” e perdeu rapidamente a cultura de inovação.
O problema do capital e do “risco”
Normalmente, enquanto não há “capital” os projectos são inovadores e disruptivos. Infelizmente, parece que as dificuldades aumentam a coesão e focus.
Quando se justifica uma falência com o “momento que vive a economia internacional, e, em particular, a nacional”, como é que isto justifica que o projecto tenha calmamente seguido o evidente rumo de falência já previsto (à minha saída) em início de 2006? Desfecho que só não aconteceu mais cedo porque foram saindo pessoas, reduzidos os custos e a anterior Administração da PME Investimentos assumiu mais um “round” de investimento parecendo dizer “aguentem-se um pouco mais que nós estamos de saída”.
À parte de tudo o resto, também falhou o investidor. Falhou porque se espera de um investidor pressão, rigor e controlo na gestão do Investimento e não a preocução com a imagem pública do investimento. Não se consegue justificar que, conforme confirmou a própria InovCapital, o projecto tenha desde o início vindo a acumular prejuízos, quase sem receitas e que termine com um passivo de cerca 300.000 euros, com dívidas a colaboradores e fornecedores e com créditos reclamados em tribunal por um accionista (eu) de mais de 300.000 euros.
Depois da anterior preocupação com a imagem pública, pergunto-me como é que a Administração da InovCapital aparece agora a dar a cara ao Jornal de Negócios assumindo que o projecto teve em 2007 um prejuízo de 655.000 EUR face a um insignificante volume de negócios de 237.000 EUR?
Porque é que a Netcall não foi vendida?
Está inerente a um investimento de “Capital de Risco” o crescimento e venda posterior. Mas isto implica a criação e valorização de activos. A Netcall, não criou activos. Os que tinha, perdeu.
Para um operador VoIP, os activos valorizáveis são:
- Marca;
- Tecnologia que o diferencie e sustente o “Know-how“;
- “Know How” e cultura de inovação;
- Base de clientes.
A marca foi-se perdendo pois deixou de se falar na “Netcall”. A plataforma/tecnologia, é de terceiros. Know-how, hoje diria que comum, sem uma cultura de inovação. Base de clientes volátil. Ou seja, nada para valorizar numa venda, como aliás foi comprovado pelas várias tentativas falhadas.
O VoIP falhou?
O VoIP não falhou. Pelo contrário, veio para ficar. Mas devagarinho, sem sobressaltos. Como quase tudo o que é hoje parte do mundo online, acabou por fazer parte dos nossos dias. Não aconteceu de uma vez. Na verdade, ainda não aconteceu totalmente. Mas está a acontecer. As empresas começam cada vez mais a unificar serviços e comunicações. Muitas vezes sem o perceberem. Os operadores tradicionais definiram novos modelos de negócio e reinventaram-se. O móvel funciona hoje com base em tecnologia VoIP. O mesmo para os jogos em rede. Há uma imensidão de serviços que usam VoIP e o principal sinal de amadurecimento é não nos apercebermos da sua presença.
Um exemplo curioso é o do Google que soube andar pelo VoIP, arriscar, perder e ganhar. Quando o eBay comprou o Skype, o mercado achou que o Google o devia ter feito. Nesse momento o Google lançou o GTalk com voz, assente num modelo P2P aberto. Nessa altura o Google comprou um operador VoIP em forte crescimento, a GrandCentral. Algum tempo depois, quando não percebeu como ligar o VoIP ao modelo publicitário Google, deixou morrer a GrandCentral e deixou de apostar no conceito tradicional do VoIP enquanto serviço de comunicação. Deixou de apostar no GTalk com voz.
Hoje, quase sem que o mercado se apercebesse lançou um plugin para voz e vídeo para o Chat no Gmail (versão web do GTalk). Na verdade o Google percebeu que estava a ver o VoIP pelo ângulo errado. O VoIP fazia sentido, não como serviço telefónico, mas como extensão a um produto estrela: o Gmail. Se como eu, tiverem abdicado de todos os outros clientes de email para usarem apenas o GMail, em breve vão perceber o potencial da unificação de funcionalidades: sms para continuar chats em offline, envio de videomail, integração com Twitter, Friendfeed…
O VoIP não só não falhou como já é. A única coisa que falhou foram os modelos iniciais de comercialização de VoIP.
Aprender com a falência da Netcall
Tenho a tendência de achar com o passar dos anos que tudo o que vamos aprendendo com a experiência não passa de senso comum. Hoje, comprovo este senso comum com o que retiro deste episódio infeliz:
- Estrutura accionista: agora, é-me claro que uma Startup não deve ter mais de 3 sócios. Demasiadas opiniões não são positivas! “Mea Culpa”, a Netcall ter começado com uma estrutura accionista de 6 sócios (5 operacionais) a que se veio juntar um sétimo (PME Investimentos/InovCapital) pela necessidade de investimento;
- Estrutura operacional: empresas pequenas são sinónimo de custos baixos e flexibilidade. Se uma Startup precisar de mais do que 10 pessoas, diria que ponho em causa a viabilidade;
- Capital de Risco: não é positivo em fase de Startup. As empresas quando começam devem saber o que custa começar. Isto ajuda a focar no que é importante: gerar receitas. Começa-se mais devagar mas de forma sustentada! Não digo que não se deva recorrer a “Capital de Risco”. Pelo contrário! Acho importante mas numa fase em que se saiba o que é o negócio e se necessite do capital para algo mais do que pagar salários (ex: Internacionalização, inovação e promoção). Em fases de Startup, são precisos mais modelos de “Seed Capital” como o da YCombinator - um excelente exemplo de como gerir/gerar Capital Intelectual;
- Controlo: é importante não perder o controlo dos nossos projectos. Investimento sim mas “sem vender a alma!”;
- Endividamento: seja de que forma for (banca, estado, fornecedores)… evitar. Em momentos de crise as empresas sem endividamento tem uma liberdade de acção que lhes permite adaptações rápidas;
- Branding e networking: continuam a ser os activos que sinto em défice nas Startups portuguesas;
- Paciência e perseverança: começar um projecto é carga de trabalhos. É não ter tempos livres, é dormir com preocupações, é tirar tempo à família, é, na maior parte das vezes, começar a ganhar menos do que a trabalhar para terceiros. Claro que compensa quando se consegue executar mas… custa!
Uma última palavra ao IAPMEI, PME Investimentos e InovCapital
Apesar do objectivo nobre do IAPMEI, PME Investimentos e InovCapital de ajudar a impulsionar a economia, não posso deixar de deixar uma palavra de desconforto por tudo o que o “Capital de Risco” fez e não fez ao projecto Netcall.
Eu saí do projecto por um conflito que retirou qualquer confiança que eu pudesse ter na estrutura accionista e quando isto aconteceu coloquei, para o bem e para o mal (aparentemente para o mal), todas as cartas na mesa à PME Investimentos, alertando insistentemente sobre o rumo que o projecto estava a levar.
Perante a gravidade da situação de conflito apresentada, se a prioridade tivesse sido o investimento, teria sido inevitável uma intervenção do Investidor. Não foi. Sinto que ganhou a necessidade de manter as aparências. É pena!
Pelo meio:
- Perde-se um investimento de mais de 2M de EUR;
- Perde-se um projecto que podia ter acontecido;
- Deixam-se colaboradores, accionistas e fornecedores com dívidas que nunca vão recuperar;
Eu perdi:
- Quase 8 anos de projecto (Infopulse > Webware > Netcall);
- Uma equipa;
- Uma dívida que reclamo em tribunal relativa a um contrato de compra e venda que foi assinado com conhecimento, aceitação e compromisso da PME Investimentos;
Ganhei:
- Passar a “persona non grata” para um accionista que não quis e não me quer ouvir;
- A possibilidade de fazer um “reset” e poder começar de raiz projectos inovadores, com a equipa certa, com viabilidade e que me permitem ter a legitimidade de escrever estas linhas e… seguir em frente!
Não é fácil isto de ser empreendedor em Portugal!




Tenho pena, mas fica a aprendizagem.
Um abraço,
JB
Eu vivi parte da Infopulse e vi a Webware ser engolida pela Netcall, e fui um dos que fui “encostado às boxes” nas primeiras manobras de redução de custos com pessoal… Sinceramente digo, sempre senti que havia ali muito alimento das aparências, naqueles “Loucos de Lisboa, que nos fazem duvidar” se isto vai ser sempre assim ou se um dia isto vai estourar. E estourou.
Parece que mudei de equipa “a tempo”, e até haver outra equipa a precisar de mim, mudei de campeonato e de liga!
Abraços,
DN
[...] excelente post no weblog do Vitor Magalh
Gostei da generalidade do post.
Defendo ainda assim a ideia de que não se deve manchar o nome Netcall (apesar de ficar eternamente associado ao fracasso), porque era apenas o nome do projecto de uma empresa, que ao longo dos tempos foi sofrendo alterações, que como todas as outras, é constítuida por pessoas, boas e más.
Não fico contente pelo desaparecimento do projecto, até porque se realmente se devem ordenados e subsídios aos empregados, isso é uma situação muito grave. Fico descansado porque é menos uma empresa irresponsável a comer à custa de dinheiros públicos. Parece-me também grave brincarem e invocarem em vão o frágil «momento que vive a economia internacional, e, em particular, a nacional», no comunicado dirigido aos clientes.
Eu próprio fui colaborador da Netcall, durante cerca de um ano no período de 2005/2006, tinha eu os meus 18/19. Sim, “colaborador”, termo fino cheio de 9 horas para designar trabalhador, a classe a que realmente pertenço, mas que por cheirar a sindicalismo, no meio empresarial, para as chefias e principalmente para os gestores de recursos humanos, “parece mal”, “dá mau aspecto” ou “até parece que pagamos mal”. Aparências. Não querendo comparar, o Sr. Zeinal Bava não tem problema em admitir que existe a classe dos trabalhadores na empresa que preside. Também era o que mais faltava não admitir. Trabalhei para a empresa dele e desde salários em atraso por incompetência até cartas de despedimento por engano fui alvo. Com isso, desculpem mas não “colaboro”.
Tendo sido o meu primeiro emprego, sempre me custou entender um certo regionalismo que havia entre as pessoas da Netcall. Quase como que uma rivalidade bairrista, havia um mau estar virtual entre dois pólos, Lisboa e Porto. Digo virtual porque nem todas as pessoas se conheciam. Perguntava-me a mim mesmo se não eramos todos o mesmo. Realmente não eramos. Certo é que os administradores dos quais estava mais próximo, me contavam mil e uma bandidagens tripeiras. Não querendo comprar essa ideia e tentando eu próprio construir o meu filme, fui tentando manter contacto com todos os colegas, fossem eles do Porto ou de Lisboa. Mas também não posso admitir nem aceito a ideia de ter sido metido num saco ao qual não pertencia, porque eu era apenas um estagiário profissional acabado de sair da escola.
É aqui que entra o tema «Estrutura operacional», que Vitor, parece-me a mim que referes (espero não estar enganado). Na realidade, sinto que fui um dos, se não o primeiro empregado de relativo baixo custo não desejado naquela empresa. Cedo percebi que não por ti nem por mais ninguém, mas que por toda a conjuntura empresarial em que a Netcall se via envolvida. De qualquer das formas, sempre tentei mostrar que gostava de estar ali e trabalhar para que acreditassem em mim, por mais insignificante que fosse o meu trabalho para alguns, visto que para mim, a equipa, ou o par de operadores de helpdesk era quem realmente dava a cara ao cliente. Pelos vistos, isso não chegou para provar que gostava de estar inserido naquele projecto. Passado 1 ano, sentia já que os mesmos que me haviam chamado para o projecto, agora me odiavam. Administradores chegaram a acusar-me de ter desviado informação a que chamavam “confidencial” para fora da empresa sem qualquer prova. Redículo (com E propositado). Mas ainda relacionado com esta situação e mais grave do que isso, foi tentar colocar em causa e pôr à prova a amizade de dois colegas para que à força se tentasse descobrir a verdade (ou encobrir a mentira?). Por isto e por mais, decidi ficar em terra antes que me obrigassem a saltar em alto mar. Vim-me embora. Ou pensavam que iam ficar mais 6 meses a comer à pala do IEFP?
Não escrevi nem acrescentei nada de novo sobre o que levou a Netcall à falência, pois parece-me que já tudo foi dito com precisão pelo Vitor no post. No entanto, quis deixar aqui o testemunho de alguém que teve na Netcall o seu primeiro emprego e que chegou ao mundo do trabalho por meio dela. Sobretudo, dar conta de cenas inaceitáveis. Não quero transformar isto num muro de despedidas e lamentações, mas tenho que dizer que da totalidade do tempo que estive relacionado com o grupo WebWare, fosse pela Netcall ou pela WebWare Mobile, guardo sobretudo as amizades, que ainda hoje mantenho e das quais muito me orgulho. Abraços!
Nota: Alguém me explica o que é um “business angel holandês”? Isso vê-se? Tem forma de quê?
[...] Porque faliu a Netcall? | Vitor Magalhaes Weblog [...]
Excelente insight à Netcall. Acompanhei como implementador de soluções VoIP o nascimento da Netcall, criei um PBX para o mercado empresarial baseado em Asterisk.
O VoIP poupa efectivamente custos às empresas e particulares, quem o usa entende-o, mas como qualquer produto novo tem uma grande dificuldade de penetração no mercado. É ridiculo as tarifas que os operadores convencionais cobram em comparação com operadores VoIP.
Como em qualquer startup é necessario criar “Meaning” pelo que li foi isso que falhou.
… foi pena, mas como dizes, é apenas um contratempo que te estava a “atrasar”.
Venha de lá o próximo projecto, que ainda há muita coisa por inventar - e no mercado da voz então…
(pelo menos, ideias não me faltam… Se precisares de inspiração avisa!
Amigo Vitor,
Com tanto empreendedorismo deves neste momento estar rico? :o) heheh
Quanto ao que dizes sobre ser difícil ser empreendedor em Portugal, é difícil é ser Português! ;o)
Hugz,
Luís
Olá Vítor,
Assisti a todo este processo também de uma forma bastante sofrida, felizmente bati o pé e despedi-me da empresa em Junho de 2007 e em Agosto criei a Webeffect com outro colega que também entretanto saiu do grupo.
Sabes, acho que todas as pessoas que saíram de lá ficaram mais ricas em experiência e mais sabedoras. Tu és um grande exemplo disso também. Estou certa que outros se seguirão e várias outras empresas irão beneficiar dos excelentes profissionais que ao longo dos anos chamaste para os teus projectos.
Continua a ouvir os teus instintos, nos teus ideais, foi o que fizemos também.
E temos muito orgulho em podermos dizer que trabalhámos contigo num projecto chamado Netcall, Webware, Infopulse.
Temos muito orgulho também em dizer que continuamos a trabalhar contigo.
Um bom natal e um fantástico 2009
Interessante história, muito bem escrita, e é a história de algumas startups em Portugal. Não muitas porque o “cluster” de arranque, de viabilização de start ups, ainda não fuciona bem em Portugal. Já temos capital de risco (que não traduz bem o original “venture capital”…) mas ainda não temos o tal “cluster” que junta todas as valencias necessárias para apoiar o empreendedor. (o empreendedor raramente é gestor)
“Timming” é tudo! Inclusive o “timming” para sair. E uma saída alternativa é a venda. Mas a venda faz muito mais sentido quanto todo o património, todo o activo, ainda não foi delapidado…
Seja como for, acho que é um bom exemplo a difundir.
Boa sorte para a próxima iniciativa!
Miguel Reynolds
http://www.globalbusinessbrokers.eu
Olá Vitor,
Tenho acompanhado com algum interesse e acima de tudo com a admiração os projectos de empreendedorismo nos quais participas/participaste.
Devo que confessar que como Portuguesa de gema é com tristeza e pesar que li a noticía da falência da Netcall, mas são estas experiências que nos enriquecem…
Não foi uma total surpresa, mas são estas noticias que preferimos não ter ..
Excelente briefing do caso Netcall.
Como “em época de crise, surgem os grandes lideres”, espero que 2009 seja um ano de muito empreendedorismo e positividade.
Espero que no próximo ano, possa divulgar ou apoiar alguns desses novos casos de empreendedorismo.
Sónia Brochado
Vítor, este post é um manual.
Continuação de bom trabalho, não desistindo de inovar e de não guardar as suas ideias apenas para si.
Abraço
Vítor, obrigado pelo seu testemunho, são testemunhos como este que me dão razão e justificam o meu afastamento do monstro chamado “Capital de Risco”.
Tenho realmente das pessoas que neste projecto investiram, especialmente aqueles que investiram o seu tempo e conhecimento, porque aqueles que gerem dinheiro que não lhes custou a ganhar, geralmente acabam por fazer mau uso do mesmo, gerem as aparecias, gerem quase sempre o tacho que alguém lhes deu.
Boa sorte para os projectos do presente e do futuro!
Abraço,
Carlos Afonso
Corajoso, Ensinador, e como sempre com uma visão do mundo actual, realista e funcional.
Quem o ouvir não sairá enganado…
Caro Vitor, obrigado por teres partilhado este episódio NetCall, acho que fizeste muito bem em colocar por escrito o que se passou pois desta forma consegues ter uma imagem fria e racional dos bons e maus momentos que uma empresa portuguesa encarra num mercado tão pequeno como o de Portugal. Aproveita os reconhecimentos dos erros cometidos para te lançar em novos projectos com os pés bem assentes desta vez em terreno sólido. É verdade que num país tão pequeno em que alguns dinosoros permanecem reis, a melhor maneira de furar é inovar, mas mais importante ainda é não se limitar ao território físico mas lançar-se alèm fronteiras utilizando todo o potencial da web. Nunca percebi porquê não existem mais empresas internacionais em Portugal; existem centenas senão milhares de boas pessoas subaproveitadas, os ordenados são mais baixos que em qq país da Europa, o português é fluente em linguas, enfim tem tudo para se poder iniciar projectos “low-cost” comparando com os outros países. O problema será talvez no governo ou nos institutos de apoio às empresas que, como o disseste muito bem, financiam a quem querem e deixem os financiamentos morrer sem qq controlo ou seguimento apertado.
Espero sinceramente que consigas o que buscas, pelo menos tiveste a corragem de te expor publicamente para partilhar a tua (des)aventura.
Boa tarde,
Sou infelizmente um cliente da netcall em que a empresa funcionava com base nos serviços dessa empresa, e também apenas fui avisada c dois dias de antecedencia.
Venho por isso solicitar, visto que grande parte das pesoas que aqui colocam post são entendidas no assunto, ajuda para resolver o meu problema visto as grande empresas como a oni novis pt não tem grande interesse em ajudar-nos gostaria de saber se alguem conhece alternativas ao serviço da netcall. tenho 70 clts presos por um fio pois neste momento não lhe conseguimos prestar o serviço além dos 100 numero que a anacom não me deixará pedir portabilidade.
Será que alguem conhece alternativas?
Obrigada
Muito bonitas as palavras mas gostava de saber como é que ficam as empresas que já tinham pago o serviço?
Como e quando vão receber os valores a que têm direito?
Bom-dia,
A falência da Netcall já foi pedida como pode ser confirmado em
http://www.tribunaisnet.mj.pt/cire/edital.aspx?e=13506
O procedimento normal é que os credores reclamem os seus créditos…
Pelo post que publiquei, espero que compreenda que, via Webware, também sou credor da Netcall e que estou fora do projecto desde início de 2006.
Cumprimentos,
Vítor Magalhães
Bom-dia,
Apesar de poder indicar alguns nomes de operadores VoIP que poderiam ajudar a manter o serviço (sem portabilidade de numeração, é certo), é obrigação da Administração da Netcall ajudar os seus clientes a encontrar soluções. É o mínimo que podem e devem fazer.
Sugiro o contacto directo.
Cumprimentos,
Vítor Magalhães
Realmente no inicio tivemos algum apoio mas o servidor deles foi cancelado ontem e alem dos e-mails apenas tenho um contacto telefonico que deixou de atender.
Neste momento nem as PW de acesso temos a situação tornou-se muinto complicada.
De qualquer forma agradeço o apoio e as informações
Obrigada
Alternativa ao NetCall:
http://www.voipbuster.com/pt/index.html
Caro Vitor Magalhães
Li o teu post e concordo com a maioria das tuas opiniões, de facto , conheço a Netcall como colegas de mercado , conheci pessoalmente pessoas que me pareciam inteligentes e dinâmicas e com profundos conhecimentos do mercado das telecomunicações bem como do mundo SIP.
Desde sempre que notei que a tendência da Netcall era “oferecer” tudo sem plano de como ganhar dinheiro, que é o grande objectivo de qualquer empresa. Aceito que uma empresa como acção de marketing possa oferecer um osso para depois vender o bife mas a Netcall nunca pareceu saber o que fazer com esses clientes novos, que começaram logo habituados à “borla”.
Na minha opinião até ajudaram a criar essa sensação nas pessoas que o VoIP vinha para pôr o telefone todo de borla.
Mas de borlas não vivem as empresas (pelo menos depois de deixarem de receber financiamentos).
Ok, queriam ser o skype português, bom , é como que depois de alguém inventar a roda, eles quererem inventar a roda portuguesa, mas sem inventar nada e comprar tudo feito (como o SJPhone … e sem pagar as licensas).
Ora num país desta dimensão e com todos os voipbuster e companhia , era impossível fazer concorrência em termos de valores e o utilizador final tinha todos esses á disposição e mais da IOL , sapo, google…. e não tinha nenhum vinculo com a Netcall.
Era óbvio que tentar conquistar clientes num mercado volátil com toda esta concorrência que oferecia melhores facilidades que são mais económicas e que têm mais popularidade, era no mínimo uma má ideia.
Depois quiseram ir para o mercado empresarial mas as empresas necessitam de mais do que um “operador”. Porque não é para poupar uns cêntimos que se vai gastar milhares em centrais telefónicas sem o devido valor acrescentado. Ora a Netcall, com todo o poderio financeiro nunca fez R&D, nunca inventou nada, nunca inovou , apenas comprou feito e quis vender remarcado.
O problema é que as empresas necessitam de soluções específicas para o seu negócio , que permitam mais facilidade , melhor controle nos custos , integradas nos processos de trabalho e que aumente a eficiência da sua comunicação.
Pessoalmente acho que é muito grave o que aconteceu, acho que é muito desprestigiante para o Mercado VoIP. Sobretudo na forma com que fecharam sem qualquer respeito pelos seus poucos clientes que com certeza que depois de acreditarem na maravilha dos números nómadas nunca mais vão largar a rede fixa tradicional porque ficaram literalmente sem telefone, sem respostas e sem saída.
Como “concorrente” pertenço ao mesmo mercado, e sofro com isto, já recebi telefonemas em que antes de qualquer apresentação me perguntaram se não ia falir.
Ora tenho a mesma base de clientes e a mesma conjectura. No entanto a empresa de que faço parte sempre traduziu resultados positivos e nunca teve ajudas de qualquer capital de risco ou qualquer outro financiamento a não ser a dedicação constante.
Se tivesse algum dia algum financiamento era para ajudar a minha empresa a expandir e internacionalizar, ou seja , ajudar a “vender” o que eu já tenho para vender.
Nós com muitas dificuldades, Investigámos, Desenvolvemos tecnologia e técnicas próprias, desenvolvemos soluções de servidores de comunicação vocacionadas para o mercado português e temos tido grande sucesso porque soubemos escutar as necessidades dos nossos clientes e satisfazê las.
E ao fim ao cabo , é isso que é preciso para ter sucesso , saber como satisfazer as necessidades de um cliente e ganhar rendimento com isso.
Carlos Galveias
Sucesso ou insucesso de uma iniciativa empresarial, é normal, e deve ser entendido com normalidade… sem recriminações…
Parece-me que realmente a definição de startup da inovcapital é que é enviesada.
Enterrar 2,0 M€ numa só startup, quando houve capitais de risco, a investir 30 k€, em congéneres à netcall, que hoje ainda estão no mercado, e que cresceram (em volume, trabalhadores, buzz, etc… e aos quais a “crise nacional e internacional” ainda não fechou) é que será discutível…
A responsabilidade tem que ser apurada, assim como o comentário de que a única preocupação era a percepção pública do investimento (que irresponsabilidade de responsáveis públicos!!!).
A aplicação da politica de apoio às startups deveria estar a cargo das incubadoras de empresas, que podem apoiar a actividade dessas empresas de forma quotidiana.
Com 2,0 M€ dava para apoiar dezenas de empresas, e algumas dezenas, senão uma boa centena de empreendedores…
A promoção do empreendedorismo faz-se a uma escala micro e pequena, e não com aplicações desta natureza.
Com esta historia pode-se afirmar que os empresários em Portugal são….. “Empresários da Tanga”!
Engraçado vir ter aqui quase um ano depois quando andava a pesquisar sobre Google Voice (http://googleblog.blogspot.com/2009/03/here-comes-google-voice.html).
Parece que a Google está a encontrar o seu caminho no VoIP ;-).
Gostei de ler a análise do Vitor Magalhães, principalmente sobre os aspectos que ele acha importantes para uma startup no VoIP.
Também deu para perceber que é uma pessoa empreendedora e com ideias. Bola para a frente que há muito para ser feito, em Portugal e no Mundo.